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NEWS2020
  AD&C Número 4 / janeiro a abril de 2019
NEWS PT2020
Augusto Mateus

"É preciso democratizar o sistema de inovação para o aproximar das empresas"

Que importância têm os instrumentos de Transferência e Valorização de Conhecimento (TVC) na dinamização do tecido socioeconómico de um país?
O sucesso das economias modernas é largamente determinado pelo investimento realizado em Investigação & Desenvolvimento (I&D) e Inovação, quer para responder a desafios e oportunidades quer para transformar esse investimento em novos produtos, serviços, processos e soluções. Esta relação entre investimento e resultados, depende fortemente da TVC.
Atualmente, os desafios e oportunidades têm uma natureza crescentemente complexa, cuja resposta exige diversidade de saberes e competências, dispersos por entidades distintas, umas empresariais e outras não empresariais (centros de investigação, laboratórios, centros tecnológicos, universidades). A articulação e a transferência destes conhecimentos é, por isso, central. 
Mas criar conhecimento não chega. É necessário transformá-lo em valor. Este papel cabe às empresas. Nenhum destes processos é simples e isento de riscos, o que torna os instrumentos de promoção da TVC muito importantes para ajudar a mitigar os riscos e a promover a adesão à TVC. 


Que avanços conseguiu Portugal no domínio da TVC?
Considerando as evidências recolhidas no estudo de Avaliação do Contributo dos FEEI para as Dinâmicas de Transferência e Valorização de Conhecimento em Portugal, parece inequívoco que os projetos apoiados por fundos estruturais têm permitido reforçar as dinâmicas de TVC ao longo de todo o ciclo de inovação, contribuindo para densificar e intensificar as redes relacionais entre os seus atores e, assim, consolidar os sistemas de inovação. 
Os resultados gerais da inquirição efetuada às empresas sinalizam uma redução das condicionantes à TVC, tanto ao nível do ecossistema de inovação como do financiamento e da procura de conhecimento pelas empresas. Além disso, a maioria das empresas afirmou que o impacto dos projetos apoiados foi muito positivo ao nível do aprofundamento do capital relacional com parceiros de inovação bem como da produção de conhecimento com potencial de valorização. 
O problema é que esta evidência ainda não encontra eco apreciável na realidade mais geral da economia portuguesa. Os resultados dos vários Inquéritos Comunitários à Inovação (CIS) mostram que, em Portugal, o peso percentual de empresas com projetos de cooperação no âmbito da inovação não regista qualquer melhoria significativa. 
Isto revela, a meu ver, que os apoios à promoção da TVC não terão sido suficientemente pervasivos na economia. Ao nível da valorização (transformar investimentos de I&D em inovação, valor e riqueza), a capacidade nacional continua muito baixa quando comparada com países de dimensão semelhante à nossa, como a Irlanda, a Bélgica, a Suécia ou a Suíça.   

 

 

Quais os principais obstáculos à transferência e valorização do conhecimento entre entidades do SI&I e as empresas?
As características dos territórios e dos seus sistemas de inovação, a capacitação humana e tecnológica dos promotores, o foco nos mercados internacionais e os projetos participados por várias entidades do sistema de inovação, emergem como fatores potenciadores da eficácia dos processos de TVC.
Em contrapartida, o clima macroeconómico, a par das deficiências (sistémicas) no sistema de inovação, as diferenças de cultura organizacional nos diferentes tipos de entidade e a falta de alinhamento entre investigação científica e necessidades das empresas, são os principais condicionamentos à produção de resultados da TVC. 
É também evidente a insuficiência de instrumentos específicos de promoção da TVC, bem como de abordagens temáticas e regionalmente diferenciadas. Por exemplo, não existe em Portugal um bom sistema de apoio à realização de doutoramentos em empresas ou à inserção de doutorados nas empresas. Não existem vias verdes de apoio à industrialização de projetos de I&D. Não existe um bom sistema de apoio a provas de conceito e à validação (económica) do potencial de valorização de projetos de I&D. Não existem contratos programa dirigidos a TTOs/OTICs. 
 

Como se encontra Portugal no panorama internacional?
Os resultados do technology push das últimas décadas posiciona bem Portugal em termos internacionais, revelando o progresso alcançado na produção científica pelas principais universidades e entidades de I&D (e.g. número de publicações indexadas na Web of Science, número de publicações em coautoria com instituições estrangeiras).
Olhando para o quadro mais alargado da inovação, a realidade é diferente. No European Innovation Scoreboard, Portugal afirma-se há vários anos como um inovador moderado, sem evoluções significativas. As nossas principais fraquezas são: baixo investimento em I&D pelas empresas, reduzido cofinanciamento privado da I&D pública, baixa cooperação das PME com outras entidades em processos de I&D, reduzido peso do emprego em indústrias de média e alta tecnologia, falta de capital de risco, reduzida utilização de patentes e baixo impacto da inovação sobre as vendas das empresas. 

 

Quais as soluções para mitigar o fosso entre o SI&I e as empresas?
É necessário “democratizar” mais o sistema de inovação, potenciando a aproximação entre o mundo científico e as empresas, nomeadamente as PME. Isso faz-se com instrumentos simplificados como os Vales I&DT (Investigação e Desenvolvimento Tecnológico), com demonstração e disseminação de resultados de I&D, com a capacitação de recursos humanos nas empresas, etc. 
Importa também estimular uma maior colaboração entre stakeholders do processo de TVC: o “mundo científico” (onde os entendimentos da gestão de topo se afiguram distintos entre si), o “mundo empresarial” (com valorizações diferentes das relações com a academia) e os “atores intermediários da inovação" (que devem mitigar dificuldades de articulação entre a academia e a sociedade). A aposta nos projetos de I&D em co-promoção, bem como os individuais, são bons recursos para potenciar mais a colaboração entre empresas e entre estas e as entidades não empresariais do sistema de I&I (Investigação e Inovação).  
Ao nível da valorização, precisamos de criar ou melhorar instrumentos de apoio específicos, seja dirigidos a provas de conceito, a Gabinetes de Apoio à Promoção da Propriedade Industrial (GAPI) ou a start ups tecnológicas.   
Agendas temáticas claras e prioritárias, uma maior integração entre apoios nacionais e europeus e projetos estruturantes que envolvam os grandes players internacionais que dominam as cadeias de valor globais, são também parâmetros fundamentais a ter em conta. 


Qual o papel do apoio dos fundos da União Europeia?
Os instrumentos para a TVC apoiados pelo QREN e pelo Portugal 2020 têm apostado na melhoria da capacidade de atuação do “mundo científico”, do “mundo empresarial” e do “mundo dos intermediários da inovação” isoladamente, mas também do modelo interativo de inovação. 
Na avaliação realizada, contabilizaram-se apoios no período QREN a 8.047 projetos potencialmente ligados à TVC, com um investimento total associado de 8,3 mil milhões de euros e um incentivo aprovado de 3,7 mil milhões de euros. São valores muito relevantes, com impacto significativo na despesa em I&D+I nacional e na capacidade para criar e desenvolver novos produtos, serviços, processos e soluções. Estes valores deverão aumentar no PT2020, criando uma realidade sem paralelo em períodos anteriores de programação. 
No entanto, o grande desafio para o futuro é aumentar a eficácia dos apoios na TVC. Para isso, é fundamental a manutenção de políticas efetivas de base nacional e regional cofinanciadas por fundos da União Europeia.   

 

Consulte o estudo de Avaliação do contributo dos FEEI para as dinâmicas de transferência e valorização de conhecimento, realizado pela EY - Auguto Mateus & Associados, no âmbito do Plano Global de Avaliação do Portugal 2020:

Consulte também os resultados de outras avaliações já realizadas. 

 
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