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NEWS2020
  AD&C Número 9 / setembro a dezembro de 2020
NEWS PT2020
Quem tem um cardo
é um felizardo!

Foi há cerca de dez anos que Fátima Duarte aceitou o desafio do Centro de Biotecnologia Agrícola e Agroalimentar do Alentejo (CEBAL), que lhe permitia cruzar os seus conhecimentos de um Doutoramento em Ciências da Saúde com os da investigação das plantas da região.

Cedo percebeu, como era aliás historicamente documentado, que a planta do cardo tinha propriedades medicinais promissoras. Da curiosidade passou à decisão de se concentrar na investigação desta planta. 
 
À medida que ia estudando, percebeu "o potencial químico gigante desta planta, ainda inexplorado", revela Fátima Duarte, investigadora principal do grupo dos Compostos Bioactivos do CEBAL, doutorada em Ciências da Saúde pela Universidade do Minho, em colaboração com o Maine Medical Center Research Institute, USA.
 
Uma das vantagens é também a forma como esta planta se adapta particularmente bem às características da bacia do Mediterrâneo, pelo que o Alentejo era o local ideal para estudá-la. 
 
Para Fátima Duarte, "ainda que o desafio inicial se prendesse com a utilização da planta para fins medicinais, percebia-se que a sua aplicação não ficava por aí", dando então início a uma "abordagem mais integrada, explorando o cardo no seu todo, direcionando o potencial de cada parte da planta para uma utilização específica."

 

A diversidade nas propriedades e nos benefícios
 
Embora seja um ingrediente obrigatório na produção dos queijos DOP (Denominação de Origem Protegida) do país, a planta do cardo não estava documentada em Portugal para certos parâmetros, pelo que foi necessário fazer a caracterização da sua variabilidade natural.
 
Nesta etapa, confirmou-se a grande diversidade química e genética da planta e a sua aplicação para diferentes fins. 
 
A flor é determinante para o setor dos laticínios. Mas as propriedades de outras partes da planta são muito promissoras: a folha do cardo concentra mais de 60% de compostos químicos com um grande potencial para a indústria médica e farmacêutica e o caule, com baixa densidade, constitui uma biomassa versátil, por exemplo para a produção de aglomerados para mobiliário. 

 

O CEBAL apostou na investigação da folha. E chegou ao registo de patentes.
 
Um dos mais interessantes foi a descoberta, através de vários estudos bioquímicos e moleculares, de que os componentes químicos da folha do cardo inibem a proliferação de células humanas de cancro da mama triplo negativo. Um tipo de cancro raro mas com grande taxa de letalidade. 
 
Esta verificação levou a equipa a centrar os seus trabalhos na identificação da melhor forma de obtenção destes bioingredientes, tendo conseguido desenvolver um método eficiente, rentável e amigo do ambiente, que permitiu obter a primeira patente europeia do processo de extração da cinaropicrina da folha do cardo.
 
A abordagem integrada da equipa ao estudo desta planta permitiu ainda perceber que os componentes da folha têm também propriedades antinflamatórias, o que levou ao desenvolvimento de filmes de quitosano, com incorporação de extrato de cardo, para tratamento de feridas crónicas. A primeira solução deste género feita à base de extratos naturais da folha do cardo.
 
Já as características fitotóxicas do cardo levaram ao desenvolvimento de um biocida – um herbicida biológico, capaz de cumprir todos os normativos legais impostos com o menor impacto possível para o ambiente, dando assim resposta às necessidades do setor agrícola. 
 
A diversidade da aplicação da folha levou à submissão da segunda patente, focada na conceção da tecnologia para obtenção de frações enriquecidas em cinaropicrina, a partir de extratos da folha do cardo, para o desenvolvimento de pensos antinflamatórios e das soluções biocidas.
 
Tendo o cardo como um recurso endógeno com potencial económico para o desenvolvimento do território, a atividade do CEBAL tem sido sempre realizada em parceria com os atores locais. 
É neste âmbito que estão a ser implementados, com os agricultores da região, o cultivo de campos de cardo. Estas áreas de cultivo permitem a produção controlada da planta e a possibilidade de testar novas aplicações com diferentes tipos de plantas de cardo. É o que tem vindo a ser feito com as queijarias, ao identificarem os perfis do cardo que melhor se adequam a cada tipo de queijo, num bom exemplo de transferência de conhecimento. 
 
Imaginava que o cardo, uma planta de beira de estrada, fosse afinal uma planta com tantas potencialidades e aplicações cientificamente testadas? 

O Programa Operacional Alentejo 2020 apostou nesta linha de investigação  e apoiou diversos projetos do CEBAL relacionados com a valorização integrada do cardo - o ValBioTecCynara, o MedCynaraBioTeC e o CynaraTeC – no valor de cerca de um milhão de euros em apoios da União Europeia. 
 
Fátima Duarte sublinha a importância destes apoios; "sem o financiamento do Portugal 2020 não estaríamos aqui a desenvolver estes projetos". 

 
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